Emblema do Seminarium Legis

Seminarium Legis


Tradução

O Umbral da Filosofia

set. de 2026

1. O que é Conhecer?

Os animais mais simples têm tato, mas sem memória, e por isso são imóveis, enquanto que os animais mais perfeitos não apenas têm visão e audição, mas são até capazes de aprender através de um certo modo de experiência.

Mas no cume dos que vivem e conhecem há o homem, cuja maneira de viver e conhecer é tão distinta que nos obriga a reconhecer a presença de uma terceira e mais maravilhosa realidade: a realidade do espírito. A vida espiritual do homem se manifesta em uma atividade que tem sido chamada com o mesmo nome que recebe a atividade superior da vida animal: o conhecimento. Para além de se chamar conhecimento, lhe foi dado o nome próprio de inteligência ou intelecto.

Contudo, como podemos medir o intelecto? Pelo seu objeto. O objeto da visão é a cor, enquanto que o objeto dos ouvidos é o som. Então, qual o objeto do conhecimento espiritual próprio e exclusivo do homem? A linguagem, pela qual comunicamos tudo o que conhecemos, nos permite responder rapidamente a essa pergunta: através de sua inteligência, o homem conhece “o que é”. Da mesma maneira que a visão ver a cor, porém, distinguindo uma cor da outra, vê a extensão, a forma, o movimento e tantas outras coisas, assim também a inteligência conhece tudo como coisas “que são” segundo os seus modos. É próprio do homem, portanto, conhecer “o que é”.

2. A Quididade das Coisas

Filosofia significa amor à sabedoria. Saber é conhecer de um modo especial e mais excelente. Os animais conhecem, porém não sabem. Muitos homens podem ter conhecimento do que é uma coisa ou outra, porém somente podem dizer que sabem aqueles que têm esse conhecimento excelente o qual chamamos de sabedoria e também de ciência.

Mas o que distingue a sabedoria ou ciência de qualquer outro modo de saber? A primeira coisa que Aristóteles, em sua Metafísica, nos ensina acerca da sabedoria é que todos os homens, por natureza, a desejam como o bem mais excelente: “Todos os homens desejam por natureza saber”. O bem mais excelente é aquele que se busca não por outro, mas por si mesmo, e que se segue buscando quando já se tem todos os demais. Assim ocorre com a sabedoria. Como nos ensina Aristóteles, os homens começaram e começarão sempre a filosofar movidos pela admiração; a princípio, admirados ante os fenômenos surpreendentes mais comuns; depois, avançando pouco a pouco, colocando-se problemas maiores, como as mudanças da lua e as questões relativas ao sol e às estrelas, como também a geração do universo, etc.

A ciência ou sabedoria é um bem tão excelente, tão acima de todos os outros bens, que, segundo Aristóteles, parece não ser algo humano, mas algo divino. É evidente que não a buscamos por nenhuma outra utilidade, senão que, assim como chamamos de homem livre aquele que é para si mesmo e não para outro, assim consideramos esta como a única ciência livre, pois esta é somente para si mesma. Por esta razão, a sua posse poderia ser justamente considerada indigna do homem, pois a natureza humana, segundo Aristóteles, é escrava em muitos aspectos.

Aristóteles sublinha que a disposição do espírito daquele que busca a sabedoria é a admiração que leva o homem a se perguntar sobre as coisas. Aquele que quer saber por alguma utilidade, uma vez que conhece o que necessita já não busca mais nada. Porém, o que quer alcançar a sabedoria não descansa enquanto não tiver respondido a todas as perguntas que possa formular. A filosofia começa com a pergunta, por isso que a primeira regra da arte da lógica para aprender a pensar bem consiste em saber perguntar. Aristóteles nos ensina que aqueles que querem investigar com êxito precisam começar por colocar bem suas dificuldades, pois o êxito posterior consiste na solução das dúvidas anteriores, e não é possível soltar-se se não se conhece a atadura.

Por essas razões que é preciso, primeiro, considerar bem todas as dificuldades. Aqueles que investigam sem ter considerado suas dificuldades são semelhantes aos que desconhecem onde querem ir, e, ademais, nem sequer conhecem se alguma vez encontraram aquilo que buscavam, pois o fim não é manifestado para quem assim procede, porém para aquele que considera suas dificuldades, o fim é manifesto.

Antes de nos perguntarmos por que algo é de tal modo, devemos nos perguntar o que é. Embora possamos observar muitas características de uma coisa antes de saber exatamente o que é, parece evidente que a primeira pergunta que nos convém a responder é a pergunta “Quid est?”. Essa é a primeira pergunta na qual começa a filosofia.

Ainda, poderia alguém pensar que a primeira pergunta não é quid sit, mas an sit, isto é, a pergunta acerca da existência de algo. Porém, a existência do que aparece aos sentidos é evidente, mas a sua natureza, não.

A primeira resposta, então, que busca o amante da sabedoria acerca das coisas que lhe aparecem aos sentidos é “aquilo que a coisa é”, quod quid est. Os escolásticos chamaram o que responde à pergunta quid sit de quid ou de quididade [quidditas] da coisa.

3. O Essencial e o Acidental

As coisas têm muitos aspectos ou partes, porém não é necessário considerar todos eles para dizer o que as coisas são. Há aspectos ou partes que não podem ser levados em consideração ao responder quid est tal coisa. Em primeiro lugar, aquelas partes que às vezes se dão e às vezes não, sem que a coisa deixe de ser o que é: a árvore pode ser verde ou pode não ser, mas sem deixar de ser árvore; a amizade pode dar-se entre indivíduos da mesma profissão ou não; o rosto humano pode ser branco ou negro. Porém, há também outras partes que, embora estejam sempre presentes na coisa, não são necessárias para dizer o que a coisa é: a árvore sempre tem raízes, porém não é preciso levá-las em consideração para saber o que é uma árvore; a amizade pressupõe relações frequentes, mas não é necessário considerá-las ao considerar o que é a amizade; um rosto exige uma certa ordem de partes para poder ser humano (testa, olhos, nariz, boca e queixo), mas não é uma ordem necessária a ser descrita para dizer quid est um rosto.

Há outros aspectos ou partes, no entanto, que não podem deixar de serem considerados se quisermos saber o que é a coisa: da árvore, é preciso saber o que é um vegetal; não se pode saber o que é a amizade sem saber o que é ajuda mútua; o rosto, para ser tal, deve ser uma parte do corpo que reúne vários órgãos dos sentidos.

Pelos exemplos dados, percebemos o quanto é fácil explicar a distinção em geral, mas que não é tão fácil estabelecê-la em cada caso particular. Entretanto, já podemos dizer que, ao responder quid est esta ou aquela coisa, devemos pelo menos mencionar todas aquelas partes sem as quais a coisa não somente não pode existir, senão que também não pode ser conhecida com propriedade.

Estas duas classes de partes ou aspectos das coisas são chamadas de essencial e acidental. Essentialis vem de essentia, que, por sua vez, provém de esse. O sufixo encia ou ancia é utilizado para formar o substantivo abstrato de um verbo, dirigindo o espírito a considerar aquilo em que consiste a ação significada pelo verbo. Essência, então, significa aquilo em que consiste ser [quod quid est esse]. O sufixo al é utilizado para adjetivar um substantivo, indicando pertencimento ou relação com a coisa indicada com o substantivo. Essencial significa relativo ou pertencente à essência. Como essência [quod quid est esse] é um termo equivalente a quididade [quod quid est], por isso utiliza-se “essencial” para significar tudo o que relativo àquilo que a coisa é ou a quididade da coisa.

Accidentalis vem de accidens, que, por sua vez, vem de accidere, verbo composto de ad cadere. Este verbo significa sobrevir. É usado justamente para indicar todos aqueles aspectos ou partes que não precisam ser levados em consideração, que não são o que a coisa de fato é, que podem não ser considerados, isto é, que não são essenciais.

Portanto, ao perguntar quid est estamos, na verdade, perguntando: o que é essencialmente tal coisa? Quais são todos aqueles aspectos sem os quais não se pode conhecer o que a coisa é?

Todavia, como podemos distinguir o essencial do acidental? Em verdade, o essencial e o acidental das coisas se distinguem usando a inteligência. Intelligere vem de inter-legere. Legere significa escolher, eleger. Por isso que o primeiro significado de intelligere (escolher uma coisa entre outras) é discernir, distinguir. Mas distinguir entre quê e quê? Justamente entre o essencial e o acidental, isto é, distinguir o essencial dentre tudo aquilo que oferece aos sentidos. Por isso dizemos que responder a quid est é a primeira operação da inteligência.

Os cães, que são animais que melhor estimam as coisas, reconhecem o seu senhor através de certo conjunto de aspectos sensíveis, porém sem distinguir o essencial do acidental: nunca se perguntam o que a coisa é. Por outro lado, o homem, ante a primeira coisa que lhe aparece aos sentidos, se pergunta o que é aquilo que ele sente. A resposta para essa pergunta é obra da inteligência. A diferença, então, entre o conhecimento dos animais e o do homem é que o animal distingue as coisas por certa comparação das aparências sensíveis, enquanto que o homem distingue o essencial do acidental.[1]

Sem haver estudado filosofia, já entendemos o que são muitas coisas, isto é, distinguimos aquilo que lhes pertence essencialmente. Contudo, é preciso ter muito cuidado, pois entendemos muitas coisas, mas nem sempre as entendemos bem, pois muitas vezes nos parece essencial aquilo que não é, ou ao contrário, consideramos acidental aquilo que é essencial. Muitas vezes conhecemos as coisas como os animais brutos, pelos aspectos exteriores, sem propriamente entendê-las. Basta fazer alguns exercícios sobre coisas muito comuns para alcançar a humildade.

4. A Substância e os Acidentes

O primeiro discernimento que fazemos no universo de aspectos ou partes que as coisas têm, que nos é oferecido pelos cinco sentidos, é o da substância, em relação aos demais aspectos, chamados de acidentes.

O cão associa as diversas sensações: o que vê com o que ouve, toca e saboreia. E, guiado por seus instintos, pode estimar como um único objeto este conjunto de sensações. O homem, por outro lado, se pergunta “Que é o que vejo, olho ou sinto?” E, em razão disso, entende facilmente que as cores, os odores e as demais sensações são aspectos de algo colorido, cheiroso, etc., que está debaixo [sub-stat] daquilo que ele sentiu. É possível considerar a cor sem o odor, e vice-versa; porém, não pode considerar a cor sem aquilo do que é cor, nem o odor sem aquilo que é sub-stat. Isto é, cor, odor e demais sensações podem ser deixadas de lado na consideração da coisa, mas não pode ser desconsiderado aquilo que é sub-stat. Portanto, discernirmos um primeiro aspecto essencial das coisas que se oferecem aos sentidos: o que é sub-stat, enquanto que as cores, os odores e demais sensações são aspectos acidentais. Este primeiro aspecto quididativo ou primeira quididade que alcança a inteligência do homem é chamado de substância, na medida em que é o substrato das coisas acidentais, as quais chamamos de acidentes.

Este é o primeiro discernimento da inteligência, a primeira resposta que nos traz algo. Como dito anteriormente, para a pergunta “Que é o que sinto?”, devemos responder: “O que sinto é uma coisa, algo que é, um ente.” Mas nossa resposta, apesar de correta, é tão vaga como a pergunta. Porém, se respondemos: “O que sinto é essencialmente uma substância”, então progredimos, pois dizemos que as cores, odores, etc., são aspectos acidentais daquilo que é colorido, cheiroso, etc., isto é, aspectos acidentais daquilo que propriamente é.

5. Semelhanças e Diferenças Substanciais: Distinção Numérica

Analisando o modo como discernirmos substância e acidentes, podemos notar uma certa comparação de aspectos, estabelecendo semelhanças e diferenças: comparamos o que percebemos pela visão com o que foi percebido pelo olfato e demais sentidos. Do semelhante tomamos o essencial, e do diferente o acidente. A inteligência sempre alcançará o essencial por meio de semelhanças e diferenças.

Duas coisas são semelhantes se são em parte iguais; e duas coisas são diferentes se são em parte distintas. Portanto, não podemos estabelecer uma semelhança sem que estabeleçamos uma diferença, nem vice-versa, como tampouco poderíamos apontar um pai sem reconhecer um filho. Ao mostrar que duas coisas são iguais em parte, estamos mostrando que é distinto por outra parte, e o inverso também é verdadeiro.

Entendendo, então, as semelhanças e diferenças das coisas, podemos agora entender que há diferentes substâncias. Se vemos um círculo dourado no céu, não podemos saber se é uma diferença acidental de uma mesma substância (esfera celeste) ou se trata de substâncias diferentes (sol e céu). Porém, quando vemos que o cão corre atrás do gato facilmente compreendemos que ambos são semelhantes enquanto são substâncias, mas diferentes enquanto são cada um uma substância diferente da outra. Então, esta não é uma diferença acidental, senão essencial, isto é, uma diferença quididativa. É chamada de distinção numérica quando distinguimos as substâncias pelo número: aqui há uma e ali uma segunda.

6. Semelhanças e Diferenças Substanciais: Distinção Específica

Se continuarmos a prestar atenção às semelhanças e diferenças, poderemos distinguir classes ou espécies de substâncias que podemos presumir que são essencialmente semelhantes e somente acidentalmente diferentes, embora se distingam essencialmente das demais coisas.

Vemos que certas classes de substâncias são semelhantes na conjunção de aspectos sensíveis pelos quais se dão a conhecer: aparência exterior, maneira de agir, maneira de evoluir no tempo, etc. Vemos também que as diferenças pelas quais elas se distinguem umas das outras são secundárias; muitas vezes consistem naqueles aspectos que se dão e não se dão na mesma coisa; muitas vezes umas engendram a outras da mesma classe. Mesmo que não tenhamos podido conhecer distintamente a quididade ou essência dessa classe de coisas, podemos, no entanto, afirmar o seguinte: não pode ser que aquelas coisas que se manifestam regularmente semelhantes nos aspectos que parecem mais essenciais, e diferentes nos aspectos que parecem acidentais, não tenham uma quididade especificamente idêntica.

Conclusão. A análise das semelhanças e diferenças das substâncias nos permite, então, estabelecer duas distinções, as quais chamamos de distinção numérica e distinção específica das substâncias. Ambas são distinções essenciais ou quididativas, porém de natureza muito diferente. Duas substâncias da mesma espécie são quididativamente o mesmo em um sentido, e distintas em outro. São a mesma na medida em que diferem em coisas acidentais e não essenciais, e são distintas porque uma é uma substância e a outra, outra.

7. Semelhanças e Diferenças Substanciais: Distinção Genérica

É fácil observar que muitas substâncias especificamente diferentes são semelhantes não somente por serem substâncias, senão também em certos aspectos ou partes essenciais gerais (embora não tão gerais como o ser substâncias), e têm, então, certa diferença genérica em relação às demais substâncias.

O exemplo mais patente é o que chamamos por “vida”. Muitas substâncias de diferentes espécies se caracterizam por mover-se a si mesmas, enquanto que outras somente se movem se são movidas por outro. E por pouco que as observamos, é fácil entender que essa característica é essencial para a coisa. A diferença entre um cão que corre, late, come, e um que deixou de ter todo movimento próprio, toca no mais profundo de seu ser. A partir disto é que podemos distinguir quididativa ou essencialmente as espécies de substâncias viventes ou não viventes.

Dentro das substâncias viventes, podemos observar semelhanças e diferenças genéricas entre o que poderíamos chamar de modos diferentes de vida: a vida animal, na qual o movimento próprio se manifesta mais patente, e a vida vegetal, nos quais também há vida, porém não tão manifesta. Se a vida se caracteriza por certo domínio e autoridade dos próprios atos, a vida do animal se caracteriza por um domínio muito maior de suas ações, porque pode estimar, pelo conhecimento, aquilo que lhe convém e move a si mesmo para alcança-lo.

Podemos verificar como nosso conhecimento sobre o que são as coisas progride ao compará-las, encontrando suas semelhanças e diferenças. Por exemplo, quando nos perguntam quid est?, apontando para um cão, podemos responder: é substância (quididade mais genérica); é uma substância (distinta de todas as outras substâncias); é vivente (quididade genérica de algumas espécies de substâncias; é sensível (idem, mas menos genérica); é um cão (a espécie da substância). Mas se dissermos: ele é amigo, já não estamos mais respondendo quid est, senão quis est [quem é?], referindo-nos aos aspectos que poderiam haver sido de outra maneira sem que a coisa deixasse de ser o que essencialmente é (começando pelo nome).

Conclusão. Substâncias de uma mesma espécie são aquelas entre as quais não há diferença essencial, mas somente a distinção numérica. Substâncias especificamente diferentes pertencem a um mesmo gênero quando são semelhantes em partes essenciais. O gênero mais amplo ao qual todos pertencem é precisamente o gênero da substância.

8. A Questão An Sit

Dos aspectos essenciais mais genéricos – substância, vida –, por sua própria simplicidade, conhecemos com evidência quid sint [o que são?]. Porém, na maioria das vezes, não nos passa o mesmo com as quididades mais específicas. Foi dito anteriormente que aquilo que chamamos de “cão” parece ter uma mesma quididade específica, porém ainda não sabemos claramente quid est, isto é, se as diferenças entre os poodles e os bulldogs são essenciais, ou se as diferenças entre cão e lobo são na realidade acidentais.[2] Nestes casos, então, antes mesmo de responder ao quid est, podemos colocar a seguinte questão: se cão tem ou não quididade específica comum. A este tipo de questão, os escolásticos a chamam de an sit.

Das quididades mais gerais não faz sentido perguntar an sit, porque conhecemos diretamente o quid sint, mas das mais particulares convém perguntar antes an sit, isto é, se a classe de substâncias conhecidas sob tal ou qual denominação tem ou não uma quididade comum, e se essa quididade é específica ou genérica. Por exemplo, antes de começar a investigar o que é uma aranha, convém saber se “aranha” corresponde a uma quididade específica, de modo que todas as aranhas sejam essencialmente idênticas, essencialmente distintas de todo outro bicho e apenas acidentalmente distintas entre os diferentes tipos de aranhas, ou se tem uma quididade genérica, de modo que haja diferenças essenciais entre uma classe de aranha e outra. Uma vez resolvida a questão an sit a respeito do gênero ou espécie, então pode-se tentar conhecer o quid sit. [3]

9. Divisão e Definição

Como entendemos o essencial pela abstração das múltiplas aparências sensíveis, conhecemos com clareza primeiro os aspectos essenciais mais gerais e simples, e, gradualmente, esclarecemos os mais particulares e complexos. O processo pelo qual a inteligência esclarece seu conhecimento das essências é a divisão, e o término deste processo é a definição.

9.1 Divisão

Dividimos propriamente uma quididade genérica quando, entre aquelas coisas que participam desse aspecto genérico essencial, descobrimos que algumas a possuem de uma maneira e outras de outra maneira essencialmente diferente. Por exemplo, entre todas as coisas que são sujeitos possuidores de acidentes, isto é, entre todas as substâncias, vemos que algumas o são de um modo muito mais próprio, pois possuem seus acidentes como senhores e senhoras, enquanto que outras substâncias os possuem de um modo mais passivo. Chamamos as primeiras de viventes e as demais de não viventes.

Desta maneira, dividimos as substâncias em dois modos essenciais: viventes e não viventes. Logo, entre todas aquelas coisas que são viventes, descobrimos que algumas têm um controle maior sobre seus atos, pois podem agir de uma forma ou de outra, segundo o que conhecem e estimam por seus sentidos. Desta maneira, dividimos os viventes em animais, que têm vida sensível, e vegetais, o restante que não a tem dessa forma.

Não é qualquer distinção essencial que pode ser chamada adequadamente de divisão. A “divisão” propriamente dita é quando o gênero é dividido naquilo que o constitui como tal. Ao dividirmos as substâncias em viventes e não viventes, o fazemos exatamente segundo os modos do substrato, isto é, segundo os modos de cada uma das substâncias.

Também poderíamos tê-las dividido, por exemplo, entre as que são metais e as que não são. A diferença entre os dois tipos de substância é essencial, e se especificássemos o que é ser metal, poderíamos perfeitamente separar as substâncias que são metais das que não são. Mas não temos uma boa divisão aqui, pois:

I. Há certas semelhanças e diferenças essenciais entre as substâncias que são mais genéricas que o ser metal, das quais os metais também participam, por exemplo, ser um mineral. Em uma boa divisão, isso não ocorre.

II. Sobretudo, não se entende que ser ou não ser metal sejam dois modos de ser substância. Ser substância é ser sujeito de acidentes, e não se vê que o metal seja um modo especial de substrato com relação aos acidentes. Por outro lado, isso sim ocorre com o ser vivente, pois o vivente é dono de seus acidentes.

Disto, podemos entender duas propriedades da divisão:

I. Não podemos dividir um gênero do qual conhecemos sua existência (an sit), porém não conhecemos perfeitamente sua essência (quid sit).[4]

II. Não podemos dividir essencialmente uma espécie, pois dentro dela há apenas diferenças acidentais.

A importância da divisão está em que ela nos permite progredir no conhecimento claro e perfeito das quididades, começando pelas mais genéricas e evidentes, para chegar, se for possível, às mais particulares e específicas. A divisão, então, tem suas regras, e é tarefa da lógica determiná-las.

9.2 Definição

Definere é um verbo composto pela preposição de, que significa procedência, e finere, que significa pôr fim, limitar, terminar. Ao agregar a preposição de (de-finir, de-limitar, de-terminar), estes verbos já não indicam a ação de pôr os limites ou términos às coisas que não os têm, mas sim de discernir os que já têm este limite ou término por natureza. Definir uma coisa é discernir os limites daquilo que a coisa é, isto é, encontrar determinadamente todos os aspectos quididativos ou essenciais da coisa, de tal maneira que conheçamos perfeitamente quod quid est res [aquilo que a coisa é].

A definição de uma coisa é, então, a explicação de sua quididade: Definitio est oratio significans quod quid est [Definição é um enunciado que explica o que é a coisa].[5] É uma oratio, ou seja, é composta por mais de uma palavra, pois a definição consiste em discernir os distintos aspectos quididativos incluídos na quididade de algo. Definir o que é um cão consiste em apontar todas as semelhanças genéricas que permitem entender perfeitamente quod quis est [o que é a coisa], neste caso: substância-vivente-sensível-mamífera-carnívora-canina.

Uma quididade tão genérica que não inclua outra semelhança mais geral com as demais coisas, como ocorre com a “substância”, não tem nem necessita de definição. Podemos explicar o significado de substância, que significa aquilo que sustenta os acidentes, porém toda essa oratio segue significando um único e simples aspecto quididativo presente ao espírito.

A definição da quididade específica das coisas se alcança pela divisão, partindo da semelhança genérica mais ampla e simples, cuja quididade é clara ao intelecto, e procedendo ordenadamente com boas divisões até delimitar perfeitamente quod quid est tal espécie de substância. Por exemplo, a definição de “homem” é “substância-vivente-sensível-racional”. A importância da definição é máxima para a ciência, pois nos permite conhecer claramente quid sit, e não somente an sit. É, então, tarefa importantíssima da lógica ensinar as regras para chegar a uma boa definição.

10. Os Acidentes Têm Quididade?

Parece que sim, porque se nos perguntarem “quid est branco?”, responderemos que é uma cor, e se nos perguntarem “quid est longitude?”, responderemos que é uma quantidade contínua, e se nos perguntarem “quid est correr?”, responderemos que é uma ação. Todas essas respostas dizem algo que pertence necessariamente ao acidente sobre o qual se pergunta, e, portanto, os acidentes são verdadeiras quididades.

Porém, se consideramos as coisas de maneira mais estrita, parece que não. Porque o que propriamente observamos não é nem uma brancura, nem a longitude, nem o correr, senão algo que é branco, algo longo e algo que corre. Se perguntarmos “o que é que é branco?”, não podemos responder que é uma cor, nem tampouco que é algo colorado, pois não é um aspecto essencial da coisa. Teremos que dizer: é um urso polar, porém estamos respondendo com a quididade da substância que possui o branco, e não a quididade do acidente em si mesmo. E o mesmo pode ser dito daquele que é largo e do que corre.

No entanto, ainda podemos fazer outra pergunta: por que não podemos nos perguntar acerca da brancura do branco? Como dissemos acima, o abstrato se refere àquilo em que consiste ser, ao que é concreto. A brancura é aquilo que é ser branco. E isto é alguma coisa para o urso polar, que é branco e não negro. Explicamos anteriormente que aquilo que é ser tal coisa é a essência ou quididade dessa coisa. Portanto, ainda que concedamos que, ao perguntarmos pelos acidentes em concreto, não é possível encontrar sua quididade, podemos fazê-lo ao interrogá-lo em abstrato: que é a brancura ou aquilo que é ser branco, que é a longitude ou quod quid est esse largo, que é o correr, isto é, qual é a essência ou quididade do correr.

Porém, mesmo considerando os acidentes em abstrato, nos deparamos com problemas quando tentamos responder sobre a quididade do acidente, porque se há algo essencial na brancura ou em qualquer cor, é ser cor de algo, de alguma substância. Portanto, se queremos responder pelo essencial da brancura, teríamos de dizer que é uma cor em uma substância, pois é um acidente em uma substância. Todavia, nesta resposta, não estamos dizendo simplesmente o que é a brancura, mas também no que é. Portanto, ao nos perguntarmos sobre o que é a brancura, devemos responder não somente quod quid est, mas também id in quo est [aquilo em que está], isto é, o sujeito de atribuições no qual o acidente existe.

Conclusão. Dos acidentes, somente podemos considerar sua quididade se os consideramos em abstrato, e não simpliciter, pois não somente lhes pertence essencialmente ser algo, mas ser em uma substância.

11. As Coisas Artificiais Têm Quididade?

As coisas artificiais são aquelas fabricadas pelo homem, como uma mesa ou uma bicicleta. Arte factum é aquilo que é feito com arte (ars, artis, significa adaptar, dispor), isto é, segundo as regras do bem fazer.

Parece que podemos falar de uma quididade dos artefatos, porque há certas disposições essenciais em uma mesa ou em uma bicicleta sem as quais não seriam nem mesa nem bicicleta. Porém, se considerarmos o que propriamente é uma mesa, verificamos que, para a madeira de que é feita, é acidental a disposição que lhe foi dada, pois o mesmo pedaço usado pelo carpinteiro se poderia ter dado a forma de uma cadeira. O que propriamente se observa é madeira, e não mesa.

As disposições que havíamos considerado constituintes da quididade não são essenciais no artefato, mas na ideia e na intenção do artesão. Se as madeiras não estiverem dispostas (acidentalmente) oferecendo uma superfície plena, não corresponderá à ideia e intenção de mesa que tem o artesão, ou não poderá ser utilizada como mesa. Esta disposição é condição essencial da ideia e intenção, e não da coisa.

Conclusão. A quididade das coisas artificias não está nelas mesmas, mas na mente do artesão.

  1. Ainda sobre o assunto, Martínez Riu nos diz que a palavra quidditas [quididade] pode ser traduzida por essência. A noção de quididade é entendida como essência, se relacionada com a problemática medieval da distinção entre essência e existência. Santo Tomás de Aquino, segundo o mesmo autor, emprega a noção de quididade como sinônimo de essência, entendida como forma que determina a matéria. Winfried Brugger corrobora com isso, dizendo que a essência constitui primeiramente o polo oposto da existência. Assim como a existência responde à questão de se um ente existe (an sit), a essência responde ao que é o ente (quid sit); por essa razão a essência também se chama quididade. Em um segundo sentido, o termo essência denota o fundo essencial interno das coisas em oposição à sua forma exterior. Neste sentido, essência é o ser próprio ou verdadeiro daquelas, o qual produz, sustenta e torna inteligível sua forma aparente. A noção de essência vem, primeiramente, da distinção entre o essencial e o acidental, que é tarefa própria da inteligência. Não tem, portanto, nenhuma oposição com a existência. Depois, Santo Tomás chegará a distinguir essência de esse [ser], onde tampouco há contraposição com a existência. ↑
  2. Sabemos que é substância, vivente, sensível, porém encontramos também certas semelhanças com outros grupos de animais: mamíferos, carnívoros, etc., que revelam aspectos essenciais comuns que torna difícil ou, às vezes, impossível o discernimento. ↑
  3. Costuma-se dizer que an sit pergunta pela existência da coisa, enquanto que quid sit pela essência. Isso é verdade, mas é preciso esclarecer que a questão an sit tem importância científica quando pergunta pela existência da essência comum. Quando se coloca o problema an homo sit, não se trata de saber se existe “um homem” ao menos, o que bastaria ver com os olhos para resolver, mas sim se aquilo que chamamos de “homem” possui uma essência especificamente idêntica, o que não se pode ver apenas com os olhos. ↑
  4. Porque a divisão deve ser feita observando-se os modos como pode-se dar a essência genérica, o que não pode ser feito sem entendermos perfeitamente quod quid sit [o que é a coisa]. ↑
  5. Ex-plicare significa desdobrar: a definição desdobra todos os aspectos quididativos genéricos implícitos (in-plicati significa dobrados dentro) no termo que significa a espécie. Ao desdobrar “homem”, temos “substância-vivente-sensível-racional”. ↑
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